quinta-feira, 10 de junho de 2010

Domingo no Zoo :D

   Olhos atentos. A multidão se espreme. Lata. O carnaval vai passar. Mijo. Pais, mães e filhos. Todos esperam o desfile. No domingo abriram os portões do Zoo. A bicharada vai passar. Fora das grades. Fora do armário. A família reunida para assistir. O pai. A mãe. Rezam pra que o filho nunca passe por ali.
   É bonito. O orgulho do excluído. É feio. O dedo em riste. O riso. Hienas maquiadas riem de si. A família ri. Espetáculo de bizarras espécies. Safári humano. Beijos como balas perdidas. Caçadores colecionam cabeças. Trinta e cinco. As contas se perdem. Perdem-se os motivos.
   Todos viram de perto o que nem de longe era real. Viram veados. Viram bichas. Viram gays. Viram travestis. Sonhos travestidos de conquistas. Luxúria travestida de luta. Desdém travestido de respeito. Desrespeito. Sós, homossexuais. Só homossexuais. Não vieram. Nenhum. Nem riram. Nem viram. O domingo no Zoo.

Tempo e espaço :D

Debruço-me diante do universo
em busca de silêncio. Inspiração
vem do ciberespaço. Sou um grão,
um pedaço isolado no disperso

infomar, sem um cais. A solidão
me prende nesta rede. Estou submerso
no hipertexto: vislumbro o ser perverso
do tempo se escorrendo em minha mão.

A interface eletrônica, que pune
o meu carente ego e com a qual
escrevo tais poesias, chega e une

os dois mundos. Um verso ocasional
responde que integrado estou. Imune,
o meu virtuosismo é virtual.

Ingratidão :D

Diária ignorância ao teu trabalho
diário. Permaneço aqui pensando
em várias malandragens, planejando
o ócio que me pague o quanto valho.

Epígrafe à preguiça, vinda quando
inútil me percebo, o espantalho
efêmero do medo diz-me um ralho
de um ímpeto mordaz. Um miserando!

Parece que o engodo (que é achar-me
acima do fastígio) me escraviza
ao destino de um ínfimo adarme.

Enquanto, em tua labuta prioriza
o pão de cada dia, faço charme
e sigo a despertar sua ojeriza.

Consciência Negra :D

Nasci em Salvador. Sou soteropolitano. Nasci branco, com olhos verdes e cabelos lisos. Afora minhas características étnicas, sou “bem nascido”. Venho de uma família de classe média, fui batizado na igreja católica, estudei em alguns dos melhores colégios de Salvador e sempre tive acesso àquilo que é necessário para o estabelecimento de uma “vida digna’. Estes são meus crimes, tudo pelo que posso ser condenado. Mesmo que alguém diga: não há nada de errado nisso, carrego a culpa. Sinto-me culpado por não ter nascido negro e pobre. Carrego uma consciência pesada, como se tivesse construído minha pessoa com o espólio cultural de algum navio negreiro, como se tivesse sangue escorrendo de minhas mãos. Apesar dessa angústia, não nego meus crimes: quando quis fazer um esporte, escolhi a capoeira; quando quis aprender música, escolhi a percussão; quando quis aprender dança, escolhi a dança afro; quando me perguntam qual é a comida do meu povo, respondo acarajé, abará, moqueca. Se isso tudo não basta para que eu seja condenado, quando resolvi escrever um livro escolhi o candomblé como tema, e aos poucos vou me apropriando dos seus orixás.

Ontem à tarde fui ao Pelourinho, para minha aula de percussão. Coincidentemente era o Dia da Consciência Negra. Passou por mim um jovem negro, com um boné dos Lakers, um camisão do 50 Cent, uma “bermuda quase calça” dos EUA e tênis da Skaters. Subia a ladeira apressado, o negro, cantarolando a letra de algum hip hop. Talvez, naquele andar displicente pelas ruas do Pelourinho, ele não tenha consciência do peso que retirou dos meus ombros. No pleno exercício do seu livre arbítrio, ou talvez numa crise de cegueira, retirava o meu sentimento de culpa ao atirar para todos os lados os seus tesouros culturais. Ávido, zeloso, com respeito e admiração, guardei-os todos. Achado não é roubado.

Soneto à canalhice :D

Despertas, ao chamar-me de canalha,
o peso do remorso d’uma ação
passada. Pelas horas que já são,
lhe peço: que o esforço feito valha

um beijo. No momento em que o clarão
apontar no horizonte, qual navalha
mutilando os olhares, ele calha
ao fim de possuí-la em minha mão.

Apresso-me em sinceras confissões,
sinceras como alguém que já está farto
de conversas. Pensando nas canções

que traiam suas defesas. Neste quarto,
o canalha se entrega em suas feições
emitindo o sorriso do lagarto.

O gato e o novelo de lã. :D

O gato, astuto, observa o novelo de lã. Suas pupilas, de gato, verticais, registram o novelo como um código de barras: não piscam. Sua língua, de gato, umedece os seus bigodes de gato cuidadosamente. Suas unhas, de gato, retráteis, saltam à frente. O novelo, fofo, farto, oferece às unhas, língua, bigodes e pupilas de gato (e ao próprio gato) um promissor passa-tempo. O novelo, imóvel, intacto, como um gato prestes a dar um bote de gato, espera pelo gato que, imóvel, prepara o seu bote de gato. Num pulo de gato, o gato salta um salto certeiro, atingindo o novelo que, mesmo sem ser gato, mas sendo novelo e por isso farto e fofo, saltou como um gato ao contato das unhas retráteis do gato, em seu bote de gato. Saltou ainda mais que um gato, ainda mais alto, ainda mais vezes, o novelo, pois era fofo e o chão duro, como previu o astuto gato. E o novelo, enquanto farto e fofo, distraía o gato e sua curiosidade de gato, com suas patadas de gato, certeiras ao desenrolar o novelo. E o novelo de lã, lã de algodão (pois pra ser fofo, o novelo, tem que ser de lã de algodão), pulava os seus melhores pulos de gato, mostrando seus nós, embaraços, voltas e laços, que entretinham, de fato, o gato. O gato, ao desenrolar da brincadeira, ao desenrolar do novelo, ao sentir entre as unhas de gato o algodão do novelo, embaraçando-se e se desembaraçando aos seus movimentos de gato, sentia-se farto e fofo, não como um novelo, mas como um gato.

Até que por fim em linha reta estende-se o novelo que sem nós laços voltas ou embaraços nem fofura nem fartura nem pulos não pode ser novelo assim em linha reta nem pode entreter o gato e no entanto mesmo assim em linha reta nunca deixará de ser algodão...

Sombra desnuda :D

Passado o desatino
da sinceridade,

o silêncio...

Ecoa em minha mente
como um grito surdo,

a prudência...

“Despir-se de suas roupas?”
- aviso tardio –

estou nu...

Despido de mim mesmo.
“A prudência sempre tarda,
o silêncio nunca falha.”

Santo Amaro da Purificação :D


Eu que não cresci por estas ruas
Re-convexo de outras canções
Banho minha alma seminua
Num Subaé de lamentações

Águas já passadas das andanças
Passam pelas vozes imortais
Desse povo humilde e suas danças
Prendem as não-lembranças como um cais

Eu que nunca fiz a tal novena
Vejo a fé nos olhos de sua gente
Que sorri, levando à duras penas
O fardo de sorrir eternamente

Ando pelas pedras do caminho
Pedras de silêncio e comunhão
Faço desse espaço o meu ninho
Alojando o amor e a solidão

E eu não esqueço jamais
O teu negro céu estrelado
Retorno cada vez mais
Purificado...

Coração :D

Cardume :D